Zarpei cedo, por vezes gosto de andar na rua com os olhos inchados, tomar café sozinho por ser o Domingueiro mais madrugador, passar os olhos pelo jornal e dizer bom dia com uma voz rouca de fazer inveja ao Tom Waits.
Segui rumo a Norte, deixando para trás um monte de coisa nenhuma deixei-me levar pelas curvas bem torneadas de um Minho que se reinventa, que me deslumbra e me chama a si consecutivamente.
Lembro-me de estar a ouvir Mark Eitzel lá para os lados de Caminha, aquela melancolia arrastada combinava bem com o momento pacífico de um dia em que o sol se mostrava pelo seu "toque" quente na face quando em refracção pelo vidro do carro, subi o volume, levantei ligeiramente o pé e encostei profundamente a cabeça.
Mark Eitzel - The Invisible Man - 01-The Boy With the Hammer by ETAminha
Não defino garantidamente a música como apropriada para, sou mais do tipo gosto ou não gosto, mas não sou capaz de conduzir e ouvir um Jazz contemporaneo, no entanto consigo com naturalidade deixar-me levar pela companhia de Susana Baca em qualquer dos seus registos em curva contracurva ou até mesmo pelas cordas de um Pat Metheny, mesmo nos seus momentos mais jazzisticos, é uma coisa que não consigo traduzir em palavras mas que varia de disco para disco, é algo que sinto e pronto.
Reconheci lugares comuns da minha infância, revalidei memórias, validei sentimentos e quando dei por mim já rodava o Ceremony , cover pelos Galaxie 500, lembro-me de por momentos ter rodado na minha cabeça o Ian Curtis a dançar e depois me ter fixado completamente neste excelente registo que é o On Fire.
Ceremony (Joy Division) // Galaxie 500
Nestas alturas tudo sabe diferente, o convívio é mais sincero, os abraços são mais apertados, a comida sabe melhor, até mesmo a audição pactua de uma forma mais linear com o cérebro, a banda sonora surge quase sempre com novidades em músicas ás quais já perdemos a conta tal foram as vezes que as ouvimos. Dei por mim a preparar a sesta do pós almoço junto de um Carvalho numa "descasada" cadeira de praia, ainda tirei do bolso o leitor mas a "digitalite"naquele momento em nada se poderia comparar ao som silencioso em alta fidelidade de uma natureza que em nada se alterou por eu estar ali, encontrei-me numa introspecção profunda onde aleatoriamente foram passando momentos da minha vida acompanhados das respectivas bandas sonoras, antes de adormecer.
No fim do dia de regresso a casa, ainda que mais apressado que quando no sentido inverso, trazia comigo aquela calma que só o estar bem com a vida proporciona, aquele brilho nos olhos que nos ilumina o caminho e nos dá uma reinterpretação folgada do que nos rodeia, que nos faz sentir recarregados e satisfeitos.
Já em casa, na passagem para o seguinte, envolvi-me na escuridão para me despedir do "defunto" dia que não mais volta a ser, a cada recorte do baixo mais me enterrei no sofá e assim passou mais um dia como outro qualquer que o facto de ser ou não especial está no julgamento de quem o aprecia.
By the way, este último trabalho que me embalou na escuridão foi o God Is Good dos fantásticos OM.
OM - God Is Good (Thebes) by ETAminha
E esta foi e O.S.T deste dia.
Peter Hammill - The Fall Of The House Of Usher
Há 5 semanas
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